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Design de cidades

Martha Medeiros

Cidade bonita é a que cresce, aparece e ao mesmo tempo preserva o que é o patrimônio dos cidadãos. Não é caótica, poluída, nem vítima da mesmice.

Li duas ótimas matérias na recém-lançada revista Florence, que está sendo distribuída a arquitetos e designers, assim como a clientes e parceiros da empresa. Na matéria de capa, o arquiteto Ruy Othake nos instiga a pensar numa cidade menos monocromática, mais colorida e surpreendente, onde o senso prático esteja aliado ao senso estético. Entusiasma-se com a ideia de “poetizar o urbano”.

Em outra matéria, o arquiteto Manoel Coelho fala sobre as soluções encontradas para fazer de Curitiba uma cidade modelo, também ele enaltecendo não só a funcionalidade, mas a beleza dos “móveis” da cidade. Que móveis da cidade? Paradas de ônibus, cabines telefônicas, placas de sinalização, lixeiras, quiosques, relógios de rua e tudo o mais que a população usa e vê todo dia. A cidade sendo tratada como nossa casa, e exigindo, o mesmo capricho que dispensamos a escolha da nossa louça, dos nossos abajures.

Design é uma palavra que ainda sugere uma coisa distante do nosso cotidiano, quando na verdade nosso cotidiano está impregnado dela. A xícara em que tomamos café, o carro que nos conduz ao trabalho, a cadeira do nosso escritório, o telefone em cima da mesa, a caneta, o computador: tudo foi desenhado com uma intenção. Nada é aleatório.

Hoje em dia os espaços estão se reduzindo, o que obriga o redimensionamento de nossas necessidades. E a oferta de produtos está aumentando, o que obriga a diferenciação. É aí que entra o trabalho desta gente que vive de juntar o útil ao agradável, que dá cara nova ao clássico, que personaliza cada objeto, cada lugar, ajudando-nos a marcar presença num mundo onde todos se parecem.

Se isso é praxe entre quatro paredes, que seja assim também fora delas. Me interessei pela matéria sobre design de cidades porque ainda achamos que cidade bonita é cidade com praia e montanha, ou que cidade bonita é cidade histórica. São, óbvio. Mas cidade bonita também é cidade criativa, cidade que ousa, cidade que cuida dos seus detalhes. Uma cidade limpa não só na sua higiene, mas nas suas formas. Uma cidade ordenada, arejada, que tenha uma cara, um estilo. Cidade bonita é uma cidade que evolui sem pra isso precisar verticalizar-se em excesso e destruir o passado. Cidade bonita é cidade que cresce, aparece e ao mesmo tempo preserva o que é patrimônio de todos. Cidade bonita não é cidade poluída, nem caótica, nem vítima da mesmice.

Beleza não precisa apenas ser natural, pode também ser pensada. Há sempre o que cuidar, proteger, inovar – em nós e no que é nosso.


Domingo, 25 de abril de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.